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COMPLEXO ARQUEOLÓGICO PORÃO DO JAPÃO – PATRIMÔNIO CULTURAL PRÉ-HISTÓRICO DE BURITI DOS LOPES.

Montanhas de arenito do Porão do Japão.

O complexo arqueológico de monumentos rochosos, pinturas rupestres e instrumento lítico Porão do Japão situa-se a aproximadamente 07Km da cidade de Buriti dos Lopes. O acesso é dado pela BR 343 e estradas de terras em direção à foz do Rio Pirangi no Parnaíba. Sua área e coordenadas precisam ser definidas e pertence a família do Professor Betim. Tem em seu registro de propriedade apenas o nome “Japão”.

De acordo com o Mapa Geológico do Estado do Piauí, a região geomorfológica onde se situa o Porão do Japão está próxima a dois grupos geológicos de idades diferentes, porém, apresentam formações semelhantes.

A maior área é da Era Paleozoica e compreende os Períodos Siluriano e Devoniano com 435×106 anos (Siluriano) a 355×106 anos (Devoniano). Denomina-se Ssg – Grupo Serra Grande: conglomerados, arenitos e intercalações de siltitos e folhelhos. Ambientes fluvial entrelaçado, marinho raso e glacial. A segunda em menor dimensão e mais recente é da Era Cenozoica, Período Terciário compreendendo o Subperíodo Neógeno com 23,5×106 anos. Denomina-se ENb – Grupo Barreiras: arenitos e conglomerados, com intercalações de siltitos e argilitos.

Mapa geológico de Buriti dos Lopes.

O local também é conhecido por Olho D’água dos Sabinos, Olho D’água dos Ledis e recebeu do poeta e historiador Neném Calixto a denominação de “Porão do Japão” por conta de histórias antigas contadas pelos moradores do lugar, posto que a propriedade pertenceu a um grande fazendeiro antigo da região proprietário de escravos. Os diferentes nomes são dados por causa dos vários proprietários que o local já teve. Segundo os historiadores Professor Gildazio e o poeta sobredito, que promoveram a primeira expedição exploradora ao complexo arqueológico em 29 de abril de 2013:

No Olho D’água dos Sabinos, região povoada por José Sabino de Carvalho no século XIX, existiu uma das maiores fazendas de gado da região, foi a exuberância do local somados à fertilidade do solo a rica fauna e a intensa flora que fez com o José Sabino fosse atraído pelo lugar e ali montou uma próspera fazenda que no auge de seu funcionamento chegou a ter dez escravos sob seu domínio. Engenho, casa de farinha, vasto pomar, criação de ovinos, caprinos e suínos, muares e equinos, faziam daquele espaço rural um dos mais ricos do município.(https://www.portalburitiense.com.br/2013/04/30/porao-do-japao-patrimonio-historico-buritiense/)

É hoje uma aprazível propriedade com um vasto potencial para pesquisas científicas. Há também um sítio cultural histórico compreendendo as ruínas de uma antiga casa grande de fazenda e muros erguidos de pedra, possivelmente construídos por escravos.

São várias trilhas, olhos d’água, pomares, monumentos rochosos, um impressionante pilão de pedra, sítio arqueológico de pinturas rupestres e grutas inexploradas que constituem um testemunho excepcional de tradições culturais já extintas que dão a prova e representam as diferentes culturas dos grupos humanos que ocuparam a região anteriormente, antes da chegada dos europeus. Circundado por uma densa vegetação de mata conhecida como mata de capoeira ou mata de cerado, podemos encontrar várias espécies de frutas nativas do cerrado, cactáceas, bromeliáceas, plantas rasteiras e mata de cocais.

Fendas nas rochas. Cânions.

O Complexo Arqueológico Porão do Japão é um afloramento geomorfológico de cadeias e monumentos geológicos areníticos em constante processo de erosão com elevadas alturas em determinados pontos. Está situado na ampla bacia sedimentar do Rio Parnaíba dada a sua proximidade. Há entalhes profundos ao longo de feixes de fraturas nos monumentos que abrem buracos, fissuras e pequenos cânions formados por complexos processos de erosão, terremotos e movimentações tectônicas. As montanhas rochosas são constituídas por camadas horizontais ou quase horizontais dos depósitos de arenitos. Segundo o geólogo Fernando Parentes Fortes, “São estas camadas que nos contam a história mais antiga do lugar, de um período da história da Terra chamado Devoniano, há mais de 360 milhões de anos atrás”. Tiramos estas conclusões a cerca destas estruturas geológicas do Porão do Japão por conta de analogias das rochas ao Parque Nacional Sete Cidades onde há estudos comprovados sobre sua geologia; pela comparação de imagens de rochas e algumas especificações dada curta proximidade geológica dos dois complexos montanhosos, pois os dois fazem parte da mesma bacia sedimentar, as maiores diferenças são sugeridas pela hipótese do processo de erosão do Porão do Japão tenha iniciado um pouco antes de Sete Cidades por estar mais próximo do Rio Parnaíba. No período Devoniano que faz parte da Era Paleozoica, tanto o Porão do Japão quanto Sete Cidades encontravam-se em quase sua totalidade submersas por águas de um mar pouco profundo, os sedimentos que chegavam a este mar através de rios antigos já extintos, depositavam se em repouso, formaram estas montanhas. No passar dos séculos, com o rebaixamento do nível dos mares, erupções vulcânicas e movimentações tectônicas que geraram terremotos, estas montanhas se constituíram através de níveis de erosão até as águas deixarem de ter forças para remobilizar os sedimentos. No livro “Geologia de Sete Cidades (1996)” de F. Fortes podemos encontrar mais detalhadamente todo este processo de formação destas montanhas.

Exemplos de camadas de sedimentos areníticos horizontais e pequenos alvéolos.

As superfícies das rochas, de cor predominante cinzento-esbranquiçada, em certos lugares sugerirem canais fluviais, são chamadas de arenitos de planícies estuaria e arenitos de canais fluviais. Estes arenitos são expostos a ação direta do sol e em sua superfície mais externa encontramos contrações de erosão por queda de gotas das chuvas. Nos períodos de seca, há perda de água e formam gretas (aberturas estreitas) e compridas de pequena profundidade, por quase toda parte encontramos também a presença de liquens que desempenham um papel decisivo na formação da erosão dos arenitos por representar de certa forma uma proteção contra os agentes erosivos. Nos topos das montanhas formam-se pequenos pináculos arredondados (pequenos pontos elevados) formados pelas gotas de chuva onde também se desenvolvem liquens.

Monumento Obelisco. Afloramento rochoso arenítico de coloração cinzento-esbranquiçada com pigmentação amarelada produzida por liquens.

O tipo de erosão que formou o Complexo Arqueológico Porão do Japão é chamado de Erosão Alveolar, também conhecida por erosão salina, a perda do sal no arenito exerce função crucial. Esta carência do sal produz pequenas perfurações nas rochas, chamados de Alvéolos, os alvéolos aumentam de tamanho e em regiões porosas das rochas transformam-se em túneis, chamados de Túneis Anastomosados, formam- se através da ligação de dois vasos ou dutos oriundos de pontos diferentes, ligando-se de um lado externo da rocha ao outro pelo centro. Estes canais labirínticos se formam por dissolução parcial dos grãos de quartzo e das argilas. É a Erosão Alveolar e os Túneis Anastomosados responsáveis pela formação das pequenas cavernas, grutas e arcos naturais encontrados no complexo geológico.

Exemplo de Erosão Alveolar. As fendas horizontais são formadas pelos alvéolos
Exemplos de Túneis Anastomosados. Os pequenos furos dispostos em simetria próximos à base das rochas são túneis anastomosados. Entra de uma profunda caverna.

Existem próximo a uma nascente d’água alguns afloramentos rochosos, em uma dessas pedras há um pré-histórico pilão escavado na rocha arenítica, deve ter sido escavado através da incisão de ferramentas feitas de rochas mais rígidas, provavelmente rochas com alto teor de ferro. São instrumentos líticos dos ancestrais, pode-se deduzir com isso que talvez possamos encontrar algum destes instrumentos nas redondezas. Estas pedras têm tons escurecidos por conta de estarem sob uma densa vegetação, próximo de água, recebem ação de agentes orgânicos como liquens e fungos. Este antigo pilão provavelmente tenha sido utilizado para produzir os pigmentos e as tintas das pinturas rupestres, beberagens utilizadas em rituais religiosos e processamento de comida. É a prova mais evidente das ocupações humanas primitivas do lugar. A localização deste pilão está na base da cadeia de montanhas onde se encontram algumas pinturas rupestres.

Pilão de pedra escavado na rocha por habitantes paleolíticos.

As inscrições rupestres apresentam pinturas de cores avermelhada, possivelmente produzidas por fragmentos pulverizados de laterita ou hematita onde há suficientes concentrações de óxidos de ferro. A base líquida que foi aplicada este pó provavelmente tenha sido água, mas também possam ter sido aglutinantes como óleos viscosos extraídos de ovos, sangue, vegetais ou outros minerais. Tem como suporte o interior de alguns alvéolos, as paredes das grutas, estas paredes receberam bem as pinturas por não estarem mais sob a ação da erosão alveolar, protegidas da chuva, do sol e do vento, dispostas em forma plana enrijecidas por um tipo de cimentação. Em Sete Cidades há cimentação silicificada pouco profunda, em outro sítio de arte rupestre da mesma bacia sedimentar, porém, mais próximo, o Arco do Covão na cidade de Caxingó, é constituído por um arenito muito friável, cimentado com uma matriz feldspática. Não podemos dizer que é a mesma cimentação, isto é, enrijecimento da parede, porque é necessária uma pesquisa química da rocha. As grutas e cavernas têm na parte mais externa, uma cobertura grossa de galhos e folhas secas no solo e em quase todas as paredes há uma cobertura orgânica de galerias de cupins, ninhos de vespas e uma densa cortina de raízes de plantas grimpantes.

Antropomorfo. Imagem figurativa que sugere um ser humano.
Raízes de plantas grimpantes. Podemos ver também arco que transpassam a rocha formados pela erosão alveolar gerando uma pequena caverna.

Apresenta diversos problemas de conservação de arte rupestre de modo que algumas pinturas estão sendo deterioradas por estas coberturas orgânicas e necessitam de uma urgente ação de intervenção de conservação. As imagens que ainda estão à mostra representam símbolos geométricos de grafismos puros, mãos com espirais e uma imagem antropomórfica, uma leitura da iconografia primitiva paleolítica no nordeste brasileiro, são vestígios de povos pré-históricos paleolíticos que, provavelmente, habitaram temporariamente o local e deixaram registrados em grafismos geométricos e imagens figurativas a marca de sua presença.

Exemplo de degradação de arte rupestre por agentes orgânicos: galerias de cupins, raízes de plantas e ninhos de insetos, vespas e marimbondos.
Exemplo de degradação de arte rupestre por agentes orgânicos: galerias de cupins, raízes de plantas e ninhos de insetos, vespas e marimbondos. Podemos observar imagem antropomórfica e símbolos geométricos de grafismos puros.

Os povos que habitaram a região do Porão do Japão se enquadram perfeitamente no conjunto de ocupação pré-histórica, novamente, por analogia aos povos que habitavam a região de Sete Cidades. Eram povos de características peregrinos, a região apresenta traços de local habitado por povos periódicos, isto é, tribos nômades, como olhos d’água e riachos não perenes, animais de caça e árvores frutíferas de temporadas distintas.

As cidades de Piracuruca, São José do Divino, Caraúbas do Piauí, Cocal, Caxingó, Bom Princípio e Buriti dos Lopes possuem um número considerável de áreas arqueológicas em suas adjacências, o que sugere uma possível concentração maciça de populações primitivas em épocas remotas, ainda que haja possibilidade dessas ocupações terem sido sucessivas e temporárias. Essas observações foram baseadas na quantidade de registros rupestres, grutas, furnas e abrigos sob rochas encontrados nas cercanias dessas cidades, alavancando o tão propalado potencial arqueológico da região.

Por Erasmo Marcio Falcão

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